Só não se perca ao entrar no meu infinito particular...

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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

SEM ANA, BLUES


QUANDO Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de
dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma
frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu
pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a
única espécie de continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele
depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além
do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse
preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas
quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações,
porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos
que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu
apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus
pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam
uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.
Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala
do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas
mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito
horas da noite podiam-se ainda ver uns restos de dourado e vermelho
deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei
muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete
de Ana nas mãos, olhando pela janela os vermelhos e os dourados do
céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não
tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia
ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou
minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver
Nastassia Kinski nua, perguntando que tempo fazia ou qualquer coisa
assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro
entregando alguma correspondência, a vizinha de cima à procura da
gata persa que costumava fugir pela escada, ou mesmo alguma dessas
criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as
campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia
ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito
tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar
azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas
mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.
Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que
estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando,
não o momento-depois, e no momento- quando não acontece nada
dentro dele, somente a ausência de Ana, igual a uma bolha de sabão
redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do
apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também,
suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem
brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar,
apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão
e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a
dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me
deixou, como eu ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.
De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca –
de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou
suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as
noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber
no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrima
chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o
quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei
durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então
me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os
travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava
até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar
acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de
publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio
dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na
cabeça, o nojo na boca do estômago e os olhos inchados, principalmente
às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados
e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente,
bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha
aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca
aconteceu.
O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de
vodca, lágrima e café, foi também o gosto de vômito na minha boca.
Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me
arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o Pequeno
corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico
em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade,
oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar
à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me
ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça
amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o
corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos
redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo
indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca,
junto com uns restos dos sanduíches que comera durante o dia, porque
não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos
muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso
de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de
madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus
largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por
que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.
Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito -
nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele
gosto de vodca, lágrima, café e às vezes também de vômito; misturados,
no final daquela fase, ao gosto das pizzas que costumava pedir por
telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam
abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas,
entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as
frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam
banalidades como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver- semvocê,
palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura
das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria
matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama,
aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela
vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.
Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda
guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar
agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se
transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é
igual ao cheiro de outra pessoa -, mudei os móveis de lugar, comprei
um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas virgens de vídeo,
duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres
para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam
ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se
Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes
e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos
pretos, se Ana tinha a voz rouca, eu as selecionava pelas vozes
estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando,
bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além
de amor-amor ou meu-menino-querido, passando os dedos da mão
direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas
costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes
frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava
demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e
também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Deborah, Vivian, Paula, Teresa,
Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise,
Karima, Cristina, Márcia, Nadir, Aline e mais de quinze Marias, e uma
por uma das garotas ousadas da rua Augusta, com suas botinhas
brancas e minissaias de couro, e dessas moças que anunciam
especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma
dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa
enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas
meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus
peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu
nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente obedecia, depois que
eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma
toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar - então
eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão a Ana por traí-la assim,
com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais
que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda
noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em
plena tempestade, sem salva-vidas.
Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das
anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos,
vidências, números e axés - ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e
veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, sonhos
junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da
humildade, com promessas a Santo Antônio, velas de sete dias, novenas
de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas & velhinhos
desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra
armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mr.
Wonderful, musculação, alongamento, ioga, natação, tai-chi, halteres,
cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e
esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que
permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em
Búzios, Guarujá ou Monte Verde e de repente quem sabe Cana, mulher
de Vicente, tão compreensiva & madura, e inesperadamente Mariana,
irmã de Vicente, tão disponível & natural em seu fio- dental metálico e,
por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como
colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa
carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa
coxa queimada de sol e windsurf na minha musculosa coxa também
queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me
deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi-se tornando aos poucos um
enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse
mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e
sedutores e interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de
também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e
também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homemquase-
maduro-que-já-foi-marcado-por-um-grande-amor-perdido,
embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca
contei a ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida.
Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo
isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.
Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto
tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da
noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é
possível ver uns restos de dourado e vermelho por trás dos edifícios de
Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas
da secretária-eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora
tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda
continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo
momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse
depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do
apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A
gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que
sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços,
até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o
último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela
compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas
que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de
qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas
duras, secas, simples, irrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai
voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la e finalmente, por mais que
eu me debata, que isso é para sempre. E para sempre então, agora, me
sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do
apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta
para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um
alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece
o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.